Esquizoyoga

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Por que hoje em dia os iogues ainda parecem se preocupar tanto com o alinhamento da coluna em trikonasana, quantidade de oxigênio absorvido pelos alvéolos durante o bhastrika, quais os músculos envolvidos na execução do surya namaskar “A” e/ou qual a área cerebral é “ativada” em meditação? Estamos (nós professores de ioga) querendo ser “aprovados” pela ciência por acaso? Até quando o ioga moderno ficará girando em círculos na busca de medicalizar-se? “Qual o melhor ásana para insônia, dor de cabeça ou ansiedade?”, ainda não nos cansamos disso? O ioga possui um pensamento mágico, místico e religioso do mundo, e daí? O ioga não tem nada de científico; muito mais de filosofia… e nem poderia, a Ciência surge séculos depois. Beleza, foi bom o ioga flertar com a ciência empirista dos ingleses que os colonizavam no início do século XX para elevar a “moral” indiana, mas já está bom, né? Já se passaram 100 anos e pagamos o preço de quase sermos regulamentados pelo Conselho Federal de Ed.Fisica, e Mr. Joseph Pilates fez “Ctrl+C” e “Ctrl+V” dos asanas, criando uma aula ótima de ginástica.

Hoje é mais do que evidente a carga “espiritual” do ioga. Os textos ioguicos de cabo-a-rabo exaltam deuses, divindades, mestres bem-aventurados e toda forma de religiosidade, vamos parar de esconder isso. Qual o medo de perceber o religioso no ioga? Nem perder alunos vamos mais, pois quem quiser utilizar o ioga como “técnica terapêutica” é só consultar o Google Acadêmico e teses, artigos e dissertações aparecerão aos milhares; e, sinceramente, é bem fácil ministrar uma aula “técnica” do que conduzir alguém ao estado meditativo do ioga (citta vrtti nirodha). Com esse discurso não quero revelar a minha veia fundamentalista, pelo contrário, sou apaixonado por toda a forma de amor que os iogues modernos revelaram às formas religiosas: da Umbanda ao Santo Daime, passando pelo Yoga Cristão e até mesmo (podem pasmar) a idiossincrasia do Swásthyá. Viva a diferença, mas me incomodo aqui pela indiferença. A indiferença de iogues contemporâneos em perceber a magia/religiosidade/”espiritualidade” latente do ioga.

Sejam mais “sem-vergonhas” caros colegas, ousem mais, permitam-se revelar o seu intimo, pois é impossível viver o ioga e não ser “tocado” por essa “força”…”Força”? Olha aí o nosso vício culturalmente construído de uma realidade sem o divino, deus, algo maior de um conglomerado de células observadas, coletadas e contadas numa bancada de laboratório. O poder do conhecimento dominante no mundo moderno é o da Ciência, e ela (ou os cientistas?) subjuga o religioso. O mesmo papel que a Igreja Católica exercia de dominação na Idade Média, a Ciência (e a pseudociência) o faz modernamente. Toda argumentação moderna sobre o ioga parece precisar de uma referencia bibliografia, seja de quem traduziu os Yoga Sutras que você leu, até a razão de se aplicar suptabadha konasana nesta turma escolhida.

O ioga, como qualquer religião, vive da intuição, da magia, do sobrenatural. Começou a torcer o nariz porque o ioga não é religião? Talvez não tenha nascido uma religião, e isso se explica pela dominação religiosa do Hinduísmo sobre ele (haja vista o Budismo expulso do território indiano por não se curvar às divindades deles), mas hoje, sim, percebo o ioga como uma nova religião em processo e já desvinculado do Hinduísmo e de toda forma meio “Nova Era” que o acolheu desde os anos de 1960. A questão é que a sua educação secular, recebida por uma sociedade pretensamente laica, revela-se no exato momento em que se pronuncia a palavra religião. Você foi educado desde a infância a pensar em religião como uma “forma ordenadora de realidade que lhe privará de ver o mundo como ele realmente é!?”, e a ciência, como a forma mais “pura” de enxergar o mundo. Mas a ciência não faz a mesma coisa?

A ciência também vende a “vida eterna”: cosméticos anti-rugas, caminhada para prevenir uma velhice “sedentária”, vitaminas, esteróides, alimentação sem gordura trans… Quem que você conhece saberia lhe explicar (e você compreender) que raios é gordura trans? Você quer mesmo viver uma vida demasiadamente humana, sem ilusões? Leia Schopenhauer e Nietzsche, eles lhe explicarão. Adoro esses filósofos, mas não gostaria de viver a vida que tiveram: um solitário e o outro louco. Também não faço apologia a religião… Busco apenas revelar o engodo em que o ioga atual tem vivido quando tenta se mostrar “terapêutico”, “laico” e “espiritual”. Na verdade quando empregam a palavra espiritual os iogues querem dizer exatamente religioso, mas tem medo de falar isso muito alto e serem tachados de tolos.

A realidade é construída socialmente e os iogues vem se moldando a uma realidade social do ocidente que, desde a Revolução Francesa, construíram verdadeira ojeriza por qualquer expressão hierarquicamente fundamentada por uma organização de clérigos, sacerdotes, mestres, rishis, monges e etc. No entanto, a falta de gurus tem produzido iogues órfãos, sem “pai e nem mães” espirituais. Há um batalhão de iogues que não sabem o que fazer com a religiosidade que estoura em seus peitos sempre que entoam mantras, realizam kriyas, se estabilizam em asanas, “energizam-se” com os pranayamas e elevam-se em meditação. A prática de ioga é um ritual religioso de comunhão com deus/Isvara e não com células, fibras musculares ou neurotransmissores. Tem sentido perguntar a um muçulmano quais os músculos envolvidos durante as suas orações em que realizam suas genuflexões em direção a Meca? Então, por quê essa obsessão no ritual ioguico diário? Ilusão construída por uma sociedade em que optou, conscientemente no inicio, em se desligar de uma identidade religiosa que os oprimia, mas que alimenta ainda hoje a ideologia que toda forma de religião deve ser abolida. O que isso causou no ioga? Perda total de sua identidade transferida simbolicamente a elementos da ciência. O ioga ressignificou muito de suas escrituras à luz da biomedicina e encaminha-se para sua secularização, ou alimenta a esperança (mas ao invés de esperar Jesus, aguarda ansioso a vinda de outro messias, o cientista-místico, como ocorre na figura de Goswami, Capra e diversos outros) de um dia a ciência explicar a “espiritualidade humana”.

Bem aventurados sejam os iogues mais “vagabundos” que conheço, os que não se importam de serem quem são e viverem o ioga do coração. Esses, respondem sem vergonha nenhuma com outra pergunta quando lhe interrogam com ar desafiador qual a melhor postura para dor de cabeça: ASPIRINA e pare de fugir do ioga com perguntas tolas.

#esquizoyoga #yogacontemporaneo

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Roberto Simões é mestre, doutor e pós-doutorando em ciência da religião pela PUC-SP, é também graduado em educação física, especialista em psicologia, yoga e fisiologia e autor dos livros Neurobiologia e Filosofia da Meditação (2ª edição pela Ed.Phorte) e Ioga Malandro: Uma perspectiva histórica do ioga na América Latina e sociorreligiosa brasileira (no prelo pela Ed.Fragmentos). Além disso, é pesquisador do Centro de Estudos de Religiões Alternativas de Origem Oriental no Brasil (CERAL/ PUC-SP) e há mais de 15 anos atua em diversas formações de professores de yoga e meditação no Brasil e Portugal. Produz, ainda, o conteúdo do site Yoga Contemporâneo (www.yogacontemporaneo.com), no qual discute o contexto atual do yoga e da meditação nos países latino-americanos em artigos e podcast com mais de 90 mil audições e 129 aulas disponíveis (https://soundcloud.com/yoga-contemporaneo).
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2 comentários em “Esquizoyoga

  1. Excelente texto e reflexão Dr. Roberto! Olha que com você entendi a neurofisiologia da meditação! Ficou claro que uma coisa não anula a outra, mas toda a expectativa que envolve a necessidade de “provar-se” já é opositiva ao real objetivo da prática. Vemos em nossas turmas muitos fulanos e fulanas almejando ainda somente a estética, muitas vezes as vozinhas internas deles quase que gritam: “estou fortalecendo o quê?” “será que meu bumbum vai ficar duro?” “tô morrendo mas vamos lá, meu médico disse que é bom pra ansiedade”. Todos esses ganhos são reais sim, mas não deveriam ser o principal objetivo da prática. O recolher, o reconectar, os “eurekas” em samyama, deveriam ser os protagonistas na senda do yoga! ou não, ou expectativas mesmo que religiosas também devam ser abafadas no “Nāda”, afinal “expectativa é o combustível da mente”. Seguimos com reflexões edificantes, “muita prática, prática e prática” e com equanimidade! Namastê e imensa gratidão pela propositiva! _/\_

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